segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Na Multidão - Um Poema Pessoal

Indiferente, deitado no chão,
Sou invadido pela ânsia que não sinto,
Que não é suposto sentir,
Que não é realista haver.
A neurose de multidões que me passam por cima não discrimina a minha inexistência.
Isto impede-me que me levante,
Só consigo ficar caído no chão por aquilo que não sinto,
Sentimentos, nunca os tive.

Como nunca? Eu existo!
Como sempre, eu insisto...
Insisto na realidade de uma mentira fabricada.
Insisto, deitado, forçado por aquilo que não sou.
Desisto, destroçado, derrotado por isto, que não sinto...
As emoções que não são minhas esmagam o irreal.

Minhas?
Mas o que é meu?
Ganho força para me levantar,
Faço o que não sou,
Sou o que não faço,
Acendo o isqueiro, aqueço o pulmão,
E começo a fumar.

Não fumo a vida, desfazendo o que não tenho,
Tenho de mergulhar a mente na névoa
Enquanto ando,
Respiro a incerteza do que sou,
Descubro a minha vida de merda,
De quem são estes pensamentos?
De onde virão estes sentimentos?

Merda de vida!
Merda de existência!
Merda de sentimentos!
Merda de multidão!
Merda, a palavra que não significa nada.
Ao pensar nisto, reduzo-me a um vocábulo.

É então que o vejo.
É então que me contemplo,
O eu que me controla e quero ser.
Paralisado, cai-me o cigarro da boca...
Paralisado, cai-me também a realidade,
Volta...
E merda! Voltei a perdê-lo...

Voltei a perder-me na ânsia...

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