Vomito,
Vomito a vida,
Não me sai nada literal, mas sim,
Vomito-me furiosamente,
Mas nada,
Não comi,
Não como,
A fome nunca foi o que conheci.
Sinto-me a sair de mim,
A partir da garganta,
Como se todas as minhas palavras,
Todos os meus pensamentos,
Toda a minha identidade...
Me saísse violentamente do corpo.
Que merda!
Que não há maneira que pare!
A alma sai-me pela boca e
Tudo o que sou vem sujar-me os sapatos.
O nada que me escapa deixa nódoas no que calço.
Fodam-se os sapatos!
Fodam-se as possessões que são minhas,
Porque nada é meu.
Nem mesmo eu, se não sou nada!
O que era eu desaparece, nas manchas,
No chão que está sujo comigo.
Já não vomito,
A minha alma saiu toda,
O meu ser escapou inteiro,
Desfeito no chão nojento.
Na minha vida abre-se um túnel.
Caminho para lucidez incandescente...
Mas a merda continua!
Fui-me embora!
Escapei!
Porque é que ainda ficas?!
Porque é que ainda cá estás?!
Merda!
Vai-te embora!
Não sei quem és, livrei-me de ti!
Deixa-me viver!
Permite-me saber que sou e ser eu mesmo!
Mas não desistes,
Não há maneira de desistires-
Não há como me saíres da cabeça.
És igual a mim, mas quem sou eu?
Que és tu?
Diz-me quem tu és!
Explica-te, não me assombres na incerteza!
Vomitei parte de mim para saber,
Saber o que era mesmo.
Expulsei o que não era para me encontrar,
Mas estava lá ele outra vez...
Quem sou eu?
O Samuel que expulsei era o que não me assombra.
Queria vomitar por enjoo,
Enjoo à vida, a merda que não tenho,
Enjoo à morte, o descanso que não temo,
Era por má disposição espiritual.
Ah, percebo... Falta-me o espírito.
Sou um espírito livre sem espírito, que existe só em tinta.
Sou só letras e palavras, nada real.
Por isso, ao enjoo da alma, perdi parte de mim.
Mas ele está cá sempre,
Mas ele está dentro,
Samuel Inglês, o verdadeiro.
O falso eu, corro, como nódoas na roupa.
Estou sujo.
Estou enjoado, ainda mal disposto.
Estou perdido, porque desapareço.
Desapareço no vazio.
Acabo mais um poema sem saber quem sou.
Merda!
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