terça-feira, 2 de outubro de 2018

Rascunho inicial de um livro falhado - Escrito com Francisco Lourenço

Um estrondo abala a terra e faz perturbar a escumalha dignificada cá de baixo, de forma que acorda os que dormem para a vida, e acorda os que bebem para o jogo. São apenas estes dois tipos de pessoas que se dizem existir neste lugar sem esperança... As formas de vida mais negativas e pobres que de pode imaginar, gente de merda, que só diz merda e que passa o dia a comer e a beber merda. Pronto... Vou acalmar o meu vício de palavrões e continuar com o que contava, mas não posso fazer isso sem dizer que é importante usar esta linguagem, às vezes. Existem pessoas que usam mal os palavrões, ou que os usam em excesso, e que acabam por parecer forçados, pelo meio, mas uma má palavra bem colocada nunca fez mal a ninguém. Não mal colocadas e usadas em demasia aquelas que se dizem à volta do bar, quando nos apercebemos da origem o barulho. Caiu mais uma! Que emocionante... Como não têm palavras suficientes para conseguirem expressar bem a alegria que sentem, recorrem a este palavreado mundano. São muitos os que atiram órgãos sexuais pela boca, ou os que enchem as frases de excremento, com esperança de que ganhem algum dinheiro com a nova queda. Porque sim, é verdade, alguém caiu do novo e falso mundo, para o velho e real! Como se chamará? Como serão os seus olhos, o seu cabelo, a sua roupa, a sua voz...? Que idade terá? A única que se responde certamente é a que fala em quem é responsável por saber as respostas às outras todas.
"Sam! Uma queda nova!" Imediatamente acordo do meu sono, que estava a ser dos melhores sonos leves que já tinha tido na vida e começo a pensar em apostas. Levanto-me da minha cadeira, sem me esquecer de primeiro levantar a minha cabeça dos meus braços, numa escala mais pequena, e começo a ouvir as pessoas a falar à minha volta... Aposta-se de tudo com estas quedas, é de se lhe tirar o chapéu, como dizem os privilegiados megalomaníacos do mundo superior, porque a situação de chapéus nesta zona inundada pela sombra deles e pela.chuva ocasional não dá luz a muitos chapéus. Desde sexo, a raça, desde nome a cor favorita, desde vestido a peso.. Pelo espaço inteiro, ouvem-se as mesmas falas de apostas ridículas, um que diz: "Dou o almoço em como é homem!", sofrendo imediata supressão oportunista: "Ofereço dez jantares se não for uma mulher de cabelo curto!", este, claro, tentado lixar o outro, leva com uma pérola ainda maior em cima, esta menos ridícula e relacionada com dinheiro: "Vinte dólares num homem com cabelo curto, pintado de azul, com olhos verdes!", ninguém se atreve a responder. O dinheiro torna as coisas reais, ninguém tem muito, apostam refeições e guardam o dinheiro para poderem pagá-las. Honestamente delinquente, mas compensador, com aquilo que eu ganho. Chamam-me para ir ver como é quem caiu, sou a primeira pessoa que têm a sorte de o fazer, mas não por caridade. Acaba por ser ma questão de lucro, é o facto de ser a melhor forma de me sustentar que me leva a fazer esta porra cada vez que alguém volta a cair. Não há lá grandes conversas, só aponto em algum sítio a loucura destes pobres degenerados e saio do sítio, para a terra que criaram para nós. O sonho de um pesadelo pós-apocalíptico, mas onde nunca houve um Apocalipse. Vou procurar quem caiu do Céu que de construiu lá em cima.
Como está, o mundo está mesmo feito na merda, somos o adubo que alimenta a planta que cresce acima de nós, mas sem que sirvamos de úteis ao mundo de cima. Somos mais como uma lixeira, os que ficam para trás ou são despejados porque não servem. São esses que acabam aqui, juntamente com os filhos que vão ter, com os netos que terão e quem sabe mais. E claro, claro que somos mais que eles, como sempre foi antes de ser assim, ou pelo menos como se conta que foi, não tenho idade suficiente para ter experiência em como era antes. Conta-se, já só por contos e textos que passam, ou seja, pelo que dizem e pelo pouco que escrevem, que vem ainda mais raramente bem escrito, que as pessoas céticas e negativas eram mais até quando toda a gente vivia no mesmo espaço, e que foi preciso que se separassem as pessoas felizes e positivas das que sentiam, ou melhor, manifestavam, negatividade de que forma fosse, para que os pensamentos negativos não afastassem a humanidade daquilo que podia ser, pelo meio de depressões que diminuíam a produtividade. São coisas que se contam, mas nada disto está provado. Aliás, a palavra que vai de boca em boca desta gente é pior que o credo absurdo da mitologia mais ridícula, que só pode ser uma, nesta região do mundo. Aqueles que se esqueceram que quem vive no mundo do topo são pessoas normais, mas mais felizes do que as que tiveram o azar de mostrar negatividade, pensam que são deuses que lá estão! Deuses! A estupidez que se diz por aqui faz-me rir, de vez em quanto, e é nela que penso, enquanto ando por este estado de noite permanente, a esconder a miséria de imensas pessoas, provocado pela cobertura do Sol que nos é fornecida orgulhosamente pelos nossos companheiros humanos, tão nossos companheiros, que nos deixaram, para poderem viver felizes.
É um caminho grande que, às vezes, não compensa, porque há pessoas antipáticas, que tento fazer confortáveis no seu novo lar, e acabam por fugir, indo eu encontrá-las meses depois, a trabalhar numa loja das poucas lâmpadas solares que se conseguem arranjar, ocasionalmente, num bar rasca, onde servem escumalha como eu, ou como os que apostam, ou a apostar, num bar qualquer. Adiante, há gente para tudo, e há de tudo para toda a gente, é uma das verdades da vida que aprendi, juntamente com o facto de que o mundo está cheio de oportunistas de merda que vão usar qualquer coisa para obter algum dinheiro. Um exemplo disto? Eu, claro, nesta situação, prestes a saber tudo para fazer as apostas e poder levar a minha parte do dinheiro.
O meteoro humano estava ao alcance dos meus olhos.

- Samuel Inglês 2-6-2017

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