terça-feira, 6 de novembro de 2018

Ficção

Olho para o teto, eu absorto e o teto absurdo e lembro-me distintivamente de que me esqueci de fumar, naquele dia, sendo mais nada eu agora que o desejo do fim deste desejo por algo que me vai matar. Vou partir em breve e não tenho cigarros ou qualquer tipo de coisa que os poderia acender…. Merda, duas inúteis horas para satisfazer um desejo de me inundar no fumo, que não é sem precedente, mas que não deixa de ser forte e irritante o suficiente para provocar o meu esforço imenso em concretizá-lo…
Também não haverá ela de ter cigarros ou um isqueiro. A minha busca fica mais nada que parada, quando me apercebo disto e do facto de ela ser mais real que eu, ia ter de pedir-lhe ajuda para satisfazer o meu vício e que raio de mentor (não gosto da palavra mestre) seria se o fizesse? Um que incentiva a escravidão e o uso de outros para chegar àquilo que quer obter? Não, tudo menos isso! Vai fundamentalmente contra tudo o que alguma vez fingi ensinar, ou fingiram ensinar em meu nome. Em não ir contra mim mesmo, castigo-me irrequietamente com a ansiedade de saber que não fumarei, pelo menos por agora…
É um dia de chuva, um daqueles outubros que nunca se concretizam em mais nada que não seja introspeção e estupidez vinda dessa introspeção, e vou partir com ela para lhe ensinar sobre o tédio, numa ficção que é tão real como ela, sendo mais real do que eu. Não estou sempre chateado, aliás, desde que esta rapariga a mim se juntou, tenho aprendido a acalmar-me, ou talvez a projetar a minha fúria nos meus ensinamentos sobre a realidade, que não são mais que absurdos bitaites sobre a realidade e vida. Que saberei eu da realidade e da vida? Sei que a realidade é inatingível e que, na vida, preciso de fumar para me esquecer disso e conseguir escrever.  
Não sei o que verá ela, esta impossível donzela adormecida no seu próprio romance e no valor que dá à vida, naquilo que digo, mas a verdade é que vê alguma coisa, seja enquanto bebe furiosamente pelos cantos de bares e cafés, seja quando, sóbria e ativa, pratica comigo a raiva que tenho à vida. Agora, penso só no tempo que passa, vendo em alguma fúria e antecipação, que os números de um relógio digital não avançam. Quero gritar, declarar uma guerra ao tempo, mas não posso, que dorme ao meu lado uma pessoa que respeito por respeitar-me a mim. Já não sou apenas ódio, talvez venha do meu egocentrismo, isso não sei. 
Samuel Inglês rendeu-se um pouco à vida, como morreu Jeremias Silveiro em prosa – uma perda monumental, para quem gosta de pretensiosos intelectuais, e mais não digo, para não estragar o momento. Bombardear um desistente da prosa com atrocidades das minhas inexistentes cordas vocais seria apetecível antigamente, mas agora nada disso faz sentido, enquanto olho para o teto com sonhos de tabaco e uma jovem a dormir ao meu lado, um cenário tão absurdo como a própria ação de fingir que tal história existe.

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